Rodrigo Contrera
 

 
Apenas tudo o que importa [Sólo lo que importa] (portuguese/ spanish). Mais [Más]: Rodrigo Contrera
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Quarta-feira, Outubro 30, 2002
 
Estou prestes a começar um pequeno ensaio, para a Agulha, sobre Arguedas e Cioran.

Segunda-feira, Setembro 09, 2002
 
Maluf diz que irá levar "Rota violenta" às ruas; pergunto-me se existe Rota não-violenta. Ah, essa retórica.

Quinta-feira, Setembro 05, 2002
 
A política, no Brasil, é uma grande panela repleta de produtos em franca decomposição jogados lá dentro por um monte de desesperados a maioria dos quais mal tem o que comer.

Sexta-feira, Agosto 30, 2002
 
Algumas linhas sobre Unger, um professor metido a sábio / Por Rodrigo Contrera / Houve uma época - não muito distante, infelizmente - em que meus olhos estavam voltados para a terra de Tio Sam. Nessa época, eu reverenciava gente como John Rawls e achava que a suprema glória era conseguir vencer em Harvard. / Foi nessa época que eu encontrei o sr. Roberto Mangabeira Unger, titular em Harvard e teórico-mor do hoje candidato a presidente Ciro Gomes. Unger estava rondando a livraria Cultura do Conjunto Nacional com o seu neto - ao que parece - com aquele jeito macambúzio que só ele parece ter. / Já havia lido um livro e folheado outro de Unger. O professor, menino-prodígio que fez toda sua carreira nos States, é sem dúvida dono de vasta erudição (alemão, chinês etc.) e de pensamento original (se bem que não sei bem em que descansa tal originalidade). / Quando estava saindo, peguei o professor e perguntei-lhe sobre Rawls. Ele respondeu-me algumas coisas quando foi pego por outros basbaques que queriam a assinatura dele no seu livro "Paixão" (que ainda possuo, não li e hoje não quero mais ler). / Desde então, Unger foi pré-candidato à prefeitura paulistana (perdeu as prévias no PSB acusado de pretender filiar correligionários na última hora com o único intuito de aumentar sua votação). Sumiu por algum tempo, aparecendo agora como todo-poderoso (?) de um sempre oligarca Ciro. / Passados alguns meses da prévia à prefeitura, topei com o professor em uma banca na Paulista. Saí esbaforido perguntando-me por que é que o basbaque não ia comprar seu jornal na 5a. avenida. / Sei o quanto podem impressionar o currículo do professor e seus conhecimentos em quem vive de olhos vidrados na terra do tio Sam. Sei-o de experiência própria. / Acontece que cresci. Não acho que existam receitas milagrosas para países em crescimento e menos ainda acredito em transposição de saberes alienígenas que alienígenas outros consideram portentosos. Quem manda aqui são brasileiros de olho em suas próprias realidades. / Pois em política pouco importam pretensos sábios que sabem chinês tão bem a ponto de traduzir obras de pé. Em política importa saber qual a vontade nacional e como fazer para torná-la realidade. Para isso não é preciso sequer sair do próprio rincão. Quanto mais meter-se a sábio disposto a tornar-se tirano sem com isso dispor-se a pagar com a própria cabeça pelos erros que porventura venha a cometer. / © Rodrigo Contrera, 2002. / Publicado em http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=11528&cat=Artigos .
 
Quem já sabe, não quer mais perder-se / Por Rodrigo Contrera / "Ao longo dos anos, à medida que se vai trabalhando, a gente vai conseguido chegar perto daquilo que é uma espécie de essência das coisas" (Francis Bacon/ David Sylvester, A brutalidade do fato, Cosac & Naify, pg. 168) Acontecem momentos em que o desejo sim ainda existe, em que o amor sem razão permanece, em que o tesão sem querer enobrece aquilo que a outros envilece. Nesses momentos tudo o que era não precisa mais ser do jeito que fora para tornar-se aquilo que é, e pouco importa se o gemido de antes tornou-se apenas descanso, se o repouso de outrora mascarou-se no comodismo do agora. Não é mais o prazer a saída, não mais o esquecer a partida. É quando, então, o amor não tem nome, sobrenome, apelido, e a vida em piloto automático a si mesma se busca em meio a afrodisíacos, a silêncios expressos no olhar. É quando subsiste o amor, e é quando muitos homens se perdem em busca do não compromisso de antes, e quando altas mulheres dissipam falsas esperanças no ar contentes com o que não virá. Pois assim como a vida só vira destino tão logo acaba, a paixão só virá amor quando termina, e aquilo que se dizia clímax na partida revela a riqueza do despojo na chegada.

Quinta-feira, Agosto 29, 2002
 
O marketing político como restrição à liberdade do voto / Por Rodrigo Contrera / Bastou sair uma nova pesquisa na mídia para dar-me conta do efeito nocivo que toda atitude de marketing político exerce na escolha do voto, o mais fundamental ato do regime democrático. / A nova pesquisa a que me refiro é essa da CNT-Sensus que, hoje (29/8/02), confirma as do Ibope e Vox Populi, indicando uma queda da candidatura Ciro e um aumento da de Serra. / Eu já havia sentido o efeito dos ataques de Serra em Ciro em mim mesmo. Bastaram algumas frases pinçadas para Ciro, em meu íntimo, passar de cearense à la Collor para homem destemperado indigno de confiança. Entrevistas aqui e acolá, opiniõezinhas nada sutis serviram para corroborar a impressão. / Já disse e repito que irei anular o meu voto. Nada irá demover-me da minha falta de opção. Em suma, se para algo serve mudar minha impressão sobre este ou aquele, é para nada. Irrita, contudo, perceber o quão fácil é, para quem tem os meios e as técnicas, afetar minha noção do mundo com respeito a coisas tão particulares quanto impressões pessoais. / Agora o MEU CIRO é ISTO e não mais AQUILO porque - e somente porque - ELES assim querem. Agora, como corolário, MEU CONCEITO DE SERRA é superior ao MEU CONCEITO DE CIRO porque eles ASSIM QUEREM. Reverter conceitos como esse, nem pensar. / Do jeito que está, toda eleição é assim apenas pretexto para usar qualquer artifício tendo em vista qualquer objetivo. Com o pretexto de ganhar a eleição, faz-se qualquer ilação (plausível, é claro) para desmantelar uma imagem qualquer. Não importa se o Ciro é assim mesmo (e deve ser). Importa, em minha queixa, é que só penso o que penso porque ELES, agora, ASSIM QUEREM. / Bem sei que as ferramentas do marketing político existem, sob o prisma da campanha, para otimizar os esforços dos candidatos à conquista de postos muito concorridos e que não há nada de mal nisso. Assim sendo, o marketing político é apenas um instrumento racional que permite melhor atingir certos fins. / O marketing político, tecnicamente falando, é apenas uma ferramenta feita sob medida ao sistema democrático representativo tal qual o conhecemos, qual seja, o sistema segundo o qual a política consiste na disputa pelos votos do eleitorado encarado enquanto mercado. Tudo isso é decorrência do pensamento de gente como o saudoso economista Schumpeter, que de ingênuo nada tinha mas que não possuía somente esperteza. / Voltando ao marketing: se há algum problema em tudo isto que explano, esse problema não parece estar na ferramenta, ou seja, no marketing. Daí que o problema do marketing político está fora do marketing político. Onde? / Seria fácil dizer que o problema está na política. Tão fácil seria dizer que está na cabeça dos políticos. Ou no imediatismo daqueles que conduzem a campanha. Ou na mera busca de resultados. Ou, sei lá, na ausência de escrúpulos etc. e tal. / Que as campanhas como estão obrigam muitos a votar sem saberem bem para quê nem por quê, isso é meio redundante. Sabe-se mais do cabelo ausente da Patrícia Pillar do que se os candidatos são favoráveis à continuação do Projeto Alvorada (quer se informar? procure). / O problema está em que, ao usar fatos e expectativas, de forma manipulada, com o intuito de atingir determinados fins, os responsáveis pelas coisas como estão (e todos são responsáveis) reduzem a liberdade na escolha do voto. Apostam em que, no fundo, as coisas devem se manter como estão. Em que é preciso assumir que "as coisas funcionam desse jeito mesmo" e que por isso "a gente precisa agir como todo mundo". / Acontece que todos os candidatos, todos eles, no fundo, parecem, por cima de seu egolatrismo, sua ausência de escrúpulos em maior ou menor medida, querer deixar sua marca na história. Pergunto-me, então, olhando na história, nessa safada, se alguém de fato conseguiu deixar SUA marca assumindo as coisas tais como se mostravam. / De fato, pensando bem, não é isso que eles querem. / © Rodrigo Contrera, 2002./ Publicado em http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=2238&cat=Ensaios .

Quarta-feira, Agosto 28, 2002
 
Acabou o obsceno, a humilhação veio para ficar / Por Rodrigo Contrera / Já que todos nós visitamos sites pornográficos, de vez em quando ou sempre (quem sabe), tá na hora de refletir um pouco o que é que eles significam nos dias de hoje. / Deixemos de lado aqueles que querem se masturbar, apenas. O que pode interessar quem, mesmo sem optar pelo esporte solitário, prefere perder tempo e dinheiro para ver sexo cru? / Há pouco, reparei, em um desses sites, com a inscrição "site obsceno". Não pude deixar de me espantar com o anacronismo da palavra. Obscenos são todos, porra. Como assim "site obsceno"? Acaso um site de sexo explícito pode ser alguma coisa senão obsceno? / Pois ser obsceno é ser indecente. Pergunto se nestes tempos bicudos alguém consegue achar programas decentes na TV aberta. Não à toa minha esposa acha que, noves fora, mais vale assistir os programas do Shop Tour, sempre coisa nova, algumas ofertas etc. / Voltando aos sites pornô. Uma característica cada vez mais presente neles é, ao que me parece, a proliferação de cenas de humilhação. Ora são fotos de "bondage" (amordaçamento), ora sexo grupal em que a mulher termina num banho de sêmen, ora cenas fingidas de mulher sendo currada etc. / Reparo então que se há algo que hoje parece merecer o rótulo de obsceno é justamente a humilhação. Afinal de contas, seja qual for a nação, o regime, a cor etc., há uma luta mundial contrária à humilhação, seja por via de guerra, fome, violência, discriminação etc. / Os sites pornôs vão contra a corrente, assim, por insistirem em endeusar o achincalhe, a violência, a humilhação. / P.S.: Endereço este artiguinho àqueles que ainda acham que vale tudo. / Publicado em http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=11491&cat=Artigos. / Volto agora ao blog de sempre.

Segunda-feira, Abril 29, 2002
 
Escrevo para matar de vez minha insônia. Conta-me ela que em seu pesadelo percebia que seu braço de repente escurecia, que suas costas enegreciam de repente. Conta-me o espanto com que via o vizinho ser apossado por sombras. Ela sonhava enquanto eu matutava e ouvia os periquitos, ao longe, assustado com alguma coisa qualquer. As multidões que viram e reviram os livros não conseguem me convencer que por eles mantenham algum miserável respeito, o menor que seja. Do outro lado do balcão, os mercadores parecem surpresos diante da paixão que alguns ainda conseguem nutrir a respeito de quem algo lhes diz de perfeito. Passeamos estupidificados pelo movimento, anestesiados pelas distâncias, tentando nos convencer de que esta Bienal não precisava ser apenas um enorme mercado persa. Pelo menos deu para achar o livro que a sogra pediu e outro, sobre Gauguin, para minha mãe que este domingo ficou sem nossas presenças. Chamem-me de traidor ou de qualquer coisa que o valha, não importa. Perco aos poucos o élan de ver graça naqueles que falam português tão direito. Bonito, é, de fato. No espectro todo do mundo, contudo, equivale - ao que parece - a especializar-se em mexer com perfeição os músculos atrás da orelha. Quem se importa? É patético. Envergonharia o Cioran se lhe dissesse o quanto suas pequenas histórias me atingem. A história aqui correspondente é a de ele, aos 37 anos, ter resolvido abandonar o romeno, como língua, ao se deparar traduzindo Mallarmé para o romeno. "Que absurdo! Para que traduzir Mallarmé para um língua que ninguém conhece?", teria ele pensado. Além do que, venhamos e convenhamos, o português sequer é minha língua materna. O paradoxo em usar o livro como chamariz em bienais faraônicas consiste em extirpá-lo de tudo aquilo que ele tem de mais precioso, qual seja, de sua inimitável capacidade de introjeção, de transmissão das mensagens mais intimistas por intermédio do veículo por excelência - a palavra -, exigindo-lhe o primado da transmissão instantânea de forma a cada vez mais privilegiar o consumo imediato. Aqui, escritores policiais B transformados em ídolos de multidões; acolá, mentes pequenas lutando por achar seu espacinho no bolso dos que pensam tacanho. Não deixa de ser sintomático que bienais sejam espaços por definição arredios a escritores com mensagem e leitores com sede e paixão. Compramos "Golias Injustiçado", de Ephraim Kishon; Dictionaire de la Langue Française; Gauguin (para minha mãe) e Hopper, pela Taschen; O Retorno de Rishi, de Chopra (para minha sogra), e "Conversaciones", de E. M. Cioran.

Sexta-feira, Abril 26, 2002
 
E enquanto passa o tempo corrói nossas conversas. Meu interlocutor parece estar sofrendo. Conta-me o que fez e o chute na bunda que levou da garota. Contava-me sempre o que fazia. Surpreender nada me surpreendia pois bem sabia o quão pouco ele gostava de si. Quer anotar o que eu lhe digo, peço-lhe que não. Aviso-lhe que ah, se eu fosse amigo de sua ex-garota. "Você acha que iria escapar de mim assim, incólume? Você acha que eu não iria pensar em te enfiar estes pauzinhos quem sabe nos olhos?" Por pouco ele não chora. Mas lamenta, o que parece-me bom. Gosto dele, garanto-lhe. "Se não gostasse, você não estaria aqui, comigo". A garota ouve a conversa ao nosso lado, como quem não quer nada. Não sei o que quer, nem o que consegue. Levanta-se ao mesmo tempo que nós. Giro sobre si mesmo. Optar pelo ódio é optar por não superar a realidade, mas a ela subjugar-se com a desculpa de a ela resistir - desculpa, sim, pois o ódio estanca. Encarar o outro sob o ponto de vista daquilo que ele de fato é (ou pode ser) necessariamente acaba por atribuir-lhe um caráter patético em relação ao qual torna-se impossível resistir. Como deixar de ter pena (compaixão) ao assistir aos delírios alheios sob a clara perspectiva de quem, de fato, pôde e ainda pode optar entre o mundo real e o imaginária, entre a valentia e a covardia, entre o bem e o mal? Corrosões lingüísticas. Escrevi, ontem, "desenbarcam" no Quadro de avisos. Havia-o feito com "m", mas mudei para "n". Perco aos poucos a luta contra o português mal falado e mal escrito. Zombo e achincalho crases mal colocadas, mas como de praxe o feitiço agora me atinge. Escrevo "Entre amores e ódios regados a bala" e parece - incorretamente - algo faltar. É o erro, que se impõe, altaneiro. A Cris já mal agüenta quando insisto em que alguém prefere algo A outra coisa. Por enquanto, todo mundo - ou quase - escreve mal. Com a ajuda do Garotinho, não mais se saberá no Rio o que é - ou era - escrever bem. Os outros transformam "bambam" em sinônimo de "burro do bem". O cacete. "Creedence Clearwater". Quatro maganos idosos que se tratam como antigos colegas de escola e que parecem saídos de um filme qualquer ambientado no Texas de hoje. Sobem no palco, uivam, fazem acrobacias, parecem felizes. Não tocam mal, ao que parece, mas só passado, só passado, só passado. Jovens de camisetas negras levantam os braços e fazem gestos de chifrinho com os dedos como se algo estivessem apoiando. Mas cantam as músicas, de cabo a rabo. Nós, nem isso. O mais desprezível abjeto homem das cavernas sempre sabe quando gritar e quando falar com seguranças para proteger seu carrinho lindo. Bobinho. Não gostaria de saber que foi apenas o acaso o que o salvou. Os esforços do governo em derrubar a noventena da CPMF só fazem comprovar o quão necessário é transformar em pétreo tudo aquilo que realmente importa. E o banho que Christopher Marquis, do NYTimes, está dando em todos com sua cobertura do golpe em Chávez? Agora prova que os americanos financiaram os golpistas. Na dúvida, jornalismo é apenas isso mesmo.

Quinta-feira, Abril 25, 2002
 
Quando a viagem não tem mais volta. Tendo a admitir a impossibilidade de [qualquer um] inculcar ponto de vista próprio e integral seja em qual for a área escolhida (humanidades, artes) pelas vias usuais (argumentos racionais, inovações derivadas dos cânones da tradição etc.). Um Foucault encontrou seu caminho próprio optando por opor-se a um ponto de vista tradicional. Dadas suas opções em vida, difícil seria compartimentalizá-lo, porém, apenas em seus trabalhos. O problema é que sua marca, hoje quase consenso, se por um lado tornou-se sua limitação, assim já era no exato instante em que ele escolheu seu caminho. Em "Improvisation" (ver texto sob minha rubrica em Poesias), Cecil Taylor define-a como "instrumento de refinamento" que captaria o "instinto escuro" (dark instinct) que bate em todo organismo vivo. Pergunto-me se o refinamento vem somente depois do entendimento racional e se a improvisação é necessariamente individual, em oposição ao grupo (sociedade). Convenço-me, lamentoso, de que aquilo que é particular é em seus limites intraduzível e por isso não tem como disputar com a racionalidade a compreensibilidade coletiva do mundo. O artista tem, sim, sua visão de mundo particular impossível/impassível de ser submetida aos primados da razão; como porém tal visão de mundo requer os limites de sua arte para ser expressa, não pode, em disputa com a razão, pretender à compreensibilidade universal; no máximo, ela pode tornar-se opção para todos e somente aqueles que conseguirem compreendê-la segundo os primados de sua arte (embora a limitação do meio também se aplique à razão, esta tem a precedência devido em primeiro lugar à universalidade da linguagem e ao domínio da educação formal). O homem racional dirige-se a todos; o homem enquanto homem a cada um. No dia-a-dia dos negócios do Estado, nota-se um denodado esforço para que eles devam obedecer a uma razão pública imutável à retórica. Contrária a esse esforço, a disputa de interesses busca a retórica e o procedimentalismo casuístico de forma a fazer valer os interesses de cada um em oposição a todos.
 
Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Com o PFL e o PPB fora da disputa pelo maior cargo, dá pena ver os contendores pró e contra o atual governo se digladiarem sem nada proporem e a tudo se disporem. Relativamente patéticas as críticas à suposta PRIzação do PSDB e ao maquiavelismo implícito (ainda não comprovado) do Serra: vindo elas do PFL e do PT sugerem certa unanimidade burra, como se sendo com eles a realidade seria diferente. Mais duro é perceber que mesmo passados tantos anos esses tucanos ainda subestimam a cabeça de toda a gente esfomeada que os rodeia. Reparem que a cobrança em cascata do PIS foi eliminada só na medida em que ele subisse de 0,65% para 1,65%/. Ao que parece, ninguém está nem aí, não é mesmo. Cada um, cada um. Os europeus que se preocupem com o auto-proclamado macho Le Penis (aliás, que figurinha). Nada me faz - necessariamente - seguir a cartilha de um Jospin, só mesmo o desprezo a um Chirac e a caganeira gerada por um Le Penis. Ainda sobre Jospin, quem viver verá os cagadores de regras franceses aqui desembarcando para melhor venderem seu peixe da exclusão social. Idéia$ próprias, aqui, só as apropriada$. Sem chegar a prever a derrota de Serra, entendo que lutador que só se defende tende mais a empatar do que a ganhar. Resta saber se o Lula quer lutar ou também implora para não apanhar muito. Se eu concordar com o Calligaris, hoje (25/4), na Folha, o principal problema dos padres comedores de criancinhas não é com seus paus, mas com sua contida vontade de poder. Não podendo trepar nem aplicar na prática os poderes de que a religião os investe, sobraria para os sempre mais fracos, em força e em consciência. Interessante, o artigo "PSDB e PFL", de Fernando Haddad, na Folha de hoje (25/4). Diz, em resumo, que o PDSB é, no fundo e na prática, o PFL teórico, ou seja, aquela "direita a serviço de", e o PFL, a direita para sempre, para nunca, apenas patrimonialista. E os programas de governo, cadê?

Quarta-feira, Abril 24, 2002
 
Improvisação (Cecil Taylor) Traduzido por Rodrigo Contrera "A improvisação é uma ferramenta de refinamento uma tentativa de capturar o instinto 'escuro' cultivo do que foi aculturado de forma a aprender/apreender sua própria natureza em resposta ao grupo (sociedade) ouvindo em primeira mão o 'bater' que existe em cada organismo vivo". [Improvisation is a tool of refinement an attempt to capture 'dark' instinct cultivation of the acculturated to learn one's nature in response to group (society) first hearing 'beat' as it exists in each living organism]. [Retirado sem permissão mas com amplo respeito do CD: TAYLOR, Cecil. Air above mountains, Enja ENJ-3005 2, Conclusion]
 
Emulações 1. O tempo começa a solapar as ainda insistentes persistências-pestilências do passado. Meus passos irrequietos são boas-vindas a um futuro que não consegue sequer se prenunciar. Fazem parte do universo filosófico academicamente aceito somente aqueles que ordenaram em cadeias de razão seus pensamentos sempre imperfeitos ou os poucos sortudos que, sem o saberem, tiveram seus insights deslindados por condenados a viverem ajoelhados em perpétua escravidão face a mortos tiranos em pensamento. A paixão tornou-se hoje um objeto temido e apenas agüentado nos meios acadêmicos em que o queimar etapas tornou-se mais do que rotina. A paixão dissolve argumentos e evapora convicções, daí o temor que desperta; mas como no fundo é a paixão o que mantêm de pé aqueles condenados que tanto publicam nas revistas para especialistas torna-se premente não calá-la (ao menos de todo). Colega, em aula passada, lembrou-se de O Ateneu (Raul Pompéia) ao comentarmos o ponto de vista de Durkheim sobre educação. A Cris diz-me haver lido o papel precursor de Pompéia em relação a Freud. Que eu saiba quem vem antes não anuncia o que vem depois. Quem vem antes simplesmente diz o que de direito em primeiro lugar e por isso deve merecer todas ou ao menos parte das glórias. Só "Dança das Cabeças" parece superar "Folk Songs" em empatia nas eternas tentativas por Gismonti de trazer o Brasil, só o Brasil, ao universo sonoro contemporâneo. "Timeless", de John Abercrombie, revela-me algo ainda indiviso quanto ao verdadeiro registro espiritual e sonoro da distorção eletrônica. O único alívio ao vislumbrar toda a penca de lançamentos em jazz no Jazzmatazz é adivinhar que a grande maioria é apenas saudosista ou trata a matéria musical apenas como meio de simples sobrevivência. 1 Meu método ao achar o título destas notinhas. Deixo o espaço em branco. Escrevo todas as notas. Passo-as em ordem "correta". A palavra (ou palavras) surge(m). Procuro o significado no dicionário. Em geral, bate. Escrevo. Emulação é um tipo de imitação.
 
Devaneios eternos que permeiam o dia que passa. Toda maior insegurança só tem sentido quase se apóia na mais absoluta confiança em que nada merece confiança. Aquele que convive todos os dias com a maior insegurança de todas procura de todas as formas esquecê-la para rodar os seus dias em calma. Advém a derrota sempre que o tempo, o espaço ou os humanos obrigam-no a encarar o maior medo de frente, sem véus. O inseguro persiste, o medo também. Cumpria ser aceito por todos, nenhum menos que isso. Cumpria mostrar o íntimo e desvelar-se, por ainda acreditar em si. A busca conduziu ao paroxismo. Encontrado o nada, a extrema revelação só viria a cabo com a extrema degradação. Cumpria desenvolver o ódio no alheio para assim revelar-se, no pró e no contra. A eficácia da trama conduziu ao nivelamento por baixo do eu - e não era isso o que se desejava. A extrema degradação só tem sentido se enleva ao além-do-humano, se produz aceitação acima de qualquer rejeição. Terão agora de me aturar? A carência mal-trabalhada conduz inevitavelmente rumo ao desastre, de onde aliás ela provinha. Nada causa mais dor do que a convicção da eternidade de dor que é possível suportar sem sucumbir. Como pode ter culpa aquele de quem tudo de próximo foi retirado e a quem tudo de longínquo foi-lhe imposto, por água, terra, ar? Como pode carregar a cruz quem sequer sabe o que é carregar uma cruz, dado jamais ter sido sequer colocado no chão a andar? Correr não é mesmo que colocar um passo atrás do outro. Corre quem tem pressa; anda quem sabe viver.
 
Cínico é o crítico inquieto consigo mesmo. Vivo como se sem parar eu dispusesse à minha frente todas as condições necessárias para dissolver os entraves à nossa vida para com isso eu simultaneamente fingir nada ver para assim não carregar o peso do apenas possível fracasso. O movimento interno (trazer os fatos para si) conduz a uma instrospecção mística, quietista e de recusa do mundo. O movimento externo (impor-se aos fatos) conduz a uma extrospecção que, quando não ponderada, deriva em extremismos da vontade e que, quando ponderada em conjugação com o movimento dos outros sujeitos, produz aquilo que se costuma chamar "tornar o sonho realidade". Os dois movimentos (interno e externo) não podem, por princípio, jamais ocorrer simultaneamente. O mundo como se apresenta é a tal ponto cindido por conflitos reais que só pode ser atitude de bom-senso repudiar, por inúteis, atitudes supostamente críticas defendidas em jornais etc. por sujeitos que se auto-intitulam intelectuais. Assim senso, a chamada "atitude crítica" tão defendida por grupos como os da Escola de Frankfurt acaba na verdade servindo para mascarar, sob rótulos abstracionistas, conflitos que, para os sujeitos imbricados, assumem cruezas nada abstratas e que, portanto, não podem ser resolvidos tal como os cientistas resolvem equações matemáticas. Quando os fatos falam por si, resta calar, nem que seja para não vestir a máscara do otário. Sugiro a coluna "Precisa-se de um Le Pen", do Elio Gaspari, na Folha de hoje (24/4). Sempre é bom jogar areia nos olhos de quem insiste em colocar-se no meio de campo. Atenção àqueles que abandonam o barco petista: Hélio Luz, no Rio, aquele vereador aqui no Estado. Para quem deseja prenunciar o que virá caso o meu sogro precise engolir o sapo lá. O Luz diz querer investigar desvios éticos na Benedita, ah, a Benedita. Quão diferente é ler os textos como textos e os textos como co-respondências! (Durkheim nos textos sugeridos e Durkheim em textos de correspondência ou de congressos)

Terça-feira, Abril 23, 2002
 
Enquanto eles me encaram, possessos. Os maganos dos departamentos cagam democracia enquanto se tratam com base nas inamovíveis conquistas do feudalismo. Escrito no sábado (20/4): E dá para ouvir falar em "razão comunicativa" após ler algo sequer sobre a defenestração de Bustani? Ainda sobre Bustani, escrito hoje (23/4): Desculpe-me o sr. Celso Lafer, mas caro ministro, o sr. é um b.... Os argumentos: se os EUA assumem para si a tentativa de desmantelar o multilateralismo, e se o Brasil não assina embaixo de tais esforços, o Brasil deveria, sim, ter-se esforçado urgentemente em manter o sr. Bustani no cargo da Opaq (ao invés de haver feito corpo mole). Pois ninguém precisa de mandado para defender que, no mundo, a soberania é, EM QUESTÕES DE DIREITO, de todos os países, pobres, ricos etc. em igualdade de condições. Como soberania é apenas uma e não se negocia, desculpe-me novamente, caro sr. Lafer: o sr. é mesmo um b.... Dá pena encontrar, hoje (23/4), o Luís Carlos Bresser Pereira na biblioteca consultando, às pressas, um livro de 1991 (!!!) sobre Delegação de Poderes (!!!) sob o patrocínio da University of Chicago Press (Chicago!!! Chicago!!!) para, ao que parece, não fazer feio em banca de doutorado. Escuta: tá certo, é difícil aturar o Le Pen, mas afinal querem mesmo democracia? Nunca é demais lembrar que, se por um lado a democracia grega era uma maravilha, por outro permitia a aplicação do ostracismo para quem abusasse (mal-usasse) seus recursos retóricos e, em casos excepcionais, a existência de certas ditaduras. Democracia sempre foi e será luta (cratos) e acarreta riscos, portanto. Sobre áreas irregulares (a Folha de domingo finge surpreender-se com 3 milhões de sei lá irregulares). Uma rodovia corta certa cidade rumo ao nordeste; outra rumo a leste. Decidiram então construir um aeroporto. A cidade ia para cima mas passou a ir para o lado. Houve quem lucrou. Os enganados entraram no golpe das escrituras centenárias pagas a preço de ouro e transformadas na mais eficaz maracutaia para tomar o que já era de outros. E o golpe continua, se bem que mais longe. Há de ser perguntar: O que é irregular? Sobre a Igreja e os comedores de criancinhas (ou pedófilos). Parece que o pessoal não percebe que tão logo o Papa deixar com a Justiça seus "carneirinhos levados" a Igreja terá simultaneamente 1) assumido nova e maior culpa em cartório e 2) aberto os meandros das capelas à visitação pública. Ao que parece, todo desempregado torna-se "pesquisador" ou "poeta" tão logo a bunda começa a doer.

Domingo, Abril 21, 2002
 
Exacerbações e exumações (1). Clonador "prova" que é competente porque diz que é rico e evita falar só para não enriquecer os outros. [Entrevista de Panos Zavos à Folha, este sábado, 20/4/2002] Nem a Universal conseguiria imaginar a Bíblia ordenando "não clonarás". [Idem] Diz-me a quem agradas e dir-te-ei quem és. [Sobre título emérito a Eunice Durham, ontem, na FFLCH]. Se cada um só defende seu peixe, só liga para o resto quem já morreu. [Sobre a ECA] Não é o "quê" que mais importa, mas o "como". Como pode ensinar alguém que sequer consegue demover um operário de fazer barulho rente à sala de aula? O cara que se vira sozinho sabe que é assim que funciona. Defenda os bostinhas e ganharás nomes de ruas e de pracinhas quaisquer. A mente teima em manter a calma enquanto o corpo manifesta tiques nervosos aos borbotões.
 
Quando ao cadáver só resta exumar a si mesmo in vivo. Chega-se ao fim da vida quando unicamente nos resta exumar nossos desejos de forma a conseguirmos nos suportar. Há quem transforme o relógio em patrão, ocupando os tempos perdidos sem deixar porém de desperdiçá-los. Hegel tentou unificar a razão em seu Espírito Absoluto. Marx trouxe a luta à vida, ou a filosofia à terra, ao levar a dialética às últimas conseqüências. Weber constatou a separação das esferas de valor e a independência do poder no Estado, do capital na empresa e do sujeito na religião. O mundo tornou-se então desencantado. Lukács vinculou a totalidade à derrubada da burguesia pelo proletariado alguns anos depois de haver ocorrido a Revolução Russa em 1917. Os frankfurtianos identificaram o caráter meramente útil da razão instrumental conduzindo assim a razão a um beco sem saída. Habermas diz que a razão não precisa ser entendida tão incomunicável com as outras esferas e que a filosofia, havendo perdido a batuta, ainda pode servir como intérprete. Eis um pequeno resumo do atual estado das coisas, inspirado nas aulas do prof. Ricardo Terra (FFLCH-USP), para os eternos debatedores da razão. Triste destino esse o nosso: corpo, mente e desejos alimentados, resta-nos permanecermos sentados em frente à tela implorando aos notívagos da net alguma nota mais engraçada ou quem saber perspicaz para podermos comentar com nossas esposas ou colocar em algum site qualquer. Os tempos bicudos não recomendam debates tipo "esquerda"-"direita". O sinteco (diria ZPA) anda escorregadio demais, a hipocrisia em níveis insuportáveis impede qualquer singeleza, os terrenos baldios livres andam porventura tomados por vadios. Corroboro: a direita atualíssima vem se posando de chavões alheios como se próprios eles fossem; a esquerda em desespero parece buscar seu espaço enquanto eles ainda restam. Esperem até todas as legendas conseguirem chupetas nas tetas do Estado: direita tornar-se-á todo soporífero; esquerda todo maluco. So não entendo a cabeça daqueles que tiveram a vida toda para arrumarem alguém que tomasse conta deles e que agora, já velhos, sentem que o amparo lhes falta. Acaso ainda acham que existe almoço de graça? Braxton em Six Monk's Compositions (1987): simpático, acessível, consegue mostrar o que faz um original conduzir composições de outro. **** para o Penguin Guide.

Sábado, Abril 20, 2002
 
Para que servem estas notas tão particulares. Tento com estas notas aproximar meu mundo interno, que o individualismo insiste em exacerbar e que o sistema insiste em inutilizar, ao mundo externo dos fatos, que apesar de dominar o mundo na medida em que o homem domina a natureza mostra-se apenas como mix de desejos e contenções sociais, políticas, empresariais etc. Se o ponto de vista da crítica até Adorno havia sido o de lamentar as contradições da razão, a partir de Habermas passou a ser o de transformá-la (à crítica) em mera tradutora de saberes dados - é claro - por essa mesmíssima razão. Minhas notas visam comprovar que todo fato pode ser contextualizado em integralidade particular e que todo o discurso social dado como se fosse definitivo visa apenas desautorizar leituras aparentemente apoiadas em nada que a razão - tida como NÃO-PARTICULAR - poderia permitir. Para aproximar o mundo da vida ao mundo dos fatos é preciso, por um lado, desistir de encontrar saída independentemente dos fatos e, por outro, saber como subentender o mundo dos fatos ao mundo da vida. Isso só pode ser conseguido na medida da completa independência material (produção própria de artefatos artísticos ou não, via empresa ou não) e de legitimação (no âmbito do direito). Aqueles que dizem levar o individualismo ao último ponto possível páram na metade se por isso entendem em estender ao máximo as capacidades dos seres humanos particulares. Isso não é individualismo: isso é usar o homem enquanto objeto para conduzir a razão instrumental ao seu paroxismo. Aquilo que chamam propriamente de via mística é apenas a atribuição de um sentido particular e totalizante a um todo que, pelos meios usuais, perdeu todo e qualquer sentido. Estas colocações referem-se a todas as notas que compõem o blog http://contrera.blogspot.com e que venho publicando, sob várias denominações, no Usina de Letras tão logo consigo compô-las.

Sexta-feira, Abril 19, 2002
 
Mais nada de mais sagrado. E ainda me perguntam o que achei do STF. E é sério. O governo planeja mal, admite, impõe apagão, provoca prejuízos, manda a conta, beneficia as empresas, que dizem perder, aí decide ajudá-las mandando novamente a conta. O governo impõe imposto que diz provisório, gosta da grana, quer renová-lo, demora, ameaça aumentar outro imposto, que se não arrecadar jogará o problema para ainda outro imposto. Prevejo: a CPMF passa até 2004, o IOF vai dobrar, o PIS também vai crescer. Isto é ano eleitoral ou todo mundo anda cego? Deveriam ser proibidas as aulas com professores cujos olhos imploram anuências do tipo "você entende quão importante é isto que me mato para explicar todo dia?" De que vale a transliteração de complicadas engrenagens se mal podemos convencer o faminto a consumir o produto final? As palavras andam em círculos enquanto os guardadores de lugar pavoneiam-se e os adoradores de morcegos revoloteiam ora próximos, ora distantes. O trem continua sua marcha e mal todos mantêm-se de pé. A dois amistosos da Copa, apenas um magano acompanha o jogo contra o Portugal de Figo enquanto atravessa a catraca da estação de trem. Começa a estiagem para os clubes cariocas que nem com cartolagem passam no Rio-SP ou na Copa do Brasil. Que irritação o Juarez Soares, quero o Kajuru de volta à RedeTV! Não será com ingênuos de beque que pararão o toque do Figo lá de trás do meio de campo. "Que desespero o dessas garotas que querem ficar mais bonitas", diz a Cris enquanto folheia a última Nova Beleza. Sem dica, era o último: "A Jazz hour with Cecil Taylor / Crossing", no Conjunto Nacional. R$ 7,50, gravações de 66, 73 e 74. O que mais esperar de um jornal cujo maior doador é o governinho de sempre? "FMI sobre a economia brasileira: boa e sólida", "Ameaça de IOF é para apressar CPMF". É o Estadinho de quinta, 18/4.

Quinta-feira, Abril 18, 2002
 
Infâmias retocadas por detrás das cartas. Allende: al otro lado (Gran Diccionario de la Lengua Española). Jango: Salto que o cavalo dá, voltando-se para trás rapidamente (Michaelis). Allendango (ou allendjango): salto abrupto, voltando-se para trás, rumo ao outro lado (Contrera). Django: personagem principal de bangue-bangue à italiana. Se, como diz Jairo Nicolau (Carta Capital, Iuperj), desde 1842 a 1882 os analfabetos ricos votaram e por analfas os analfabetos pobres só o fizeram em 1985, a regra deve consistir em duvidar de 'novos' direitos até prova em contrário e questionar tudo quanto seja outorgado seja lá quando o for. Basta abrir a janela para os periquitos como que por mágica transmitirem vida a si mesmos e aos outros. O ser humano já distanciou-se demais da natureza para assumir comportamento similar. A naturalidade a que todos aspiram parece ser, em boa medida e individualmente, a aplicação ilimitada de todas suas capacidades e, coletivamente, a garantia de que as perdas para os perdedores não sejam de monta tal que façam perder o gosto pelo jogo da disputa das capacidades. Os vencedores, se por um lado são invejados, por outro precisam poder ser ignorados para melhor aturar as próprias ou alheias mediocridades. Aqui simpatizantes de "humanistas", poetas, gentes do povo: personas obscuras, repletas de orações coordenadas, subordinadas, ismos, de pseudo-heróis mortos de mortes naturais. Acolá antipatizantes de tudo quanto de complexo, de enigmático, consumidores de mensagens facilitadas, melodia, letra, refrão, letra, solo, letra, refrão, refrão, fim. Os primeiros ainda conseguem esgares surpresos; os segundos, só de desprezo. Todos só querem mesmo dinheiro e muros de concreto; os primeiros para coçarem tranqüilos; os segundos, para continuarem correndo afobados "No vaca yes drop". Enquanto a colega da Cris se vangloria de tocar o karaokê para atrapalhar os vizinhos e de zombar deles ao cantar "polícia para quem precisa de polícia", o peruano de Monte Verde toca seu sopro e vende Cds apoiados em karaokê em pleno Pão de Açúcar.
 
Ninguém mexe nem mesmo na própria cumbuca. Colega, em uma entrevista com professor da USP: - Você não acha que X? - Peraí, quem disse isso? - Eu, ora! - Ah, não. Pega essa afirmação de algum autor que eu vejo se respondo. Uma pequena história envolvendo Mustafá Contursi, o chefão do Palmeiras. O Mustafá era um dos muitos que rondavam uma reunião de cartolas na sede da FPF (Federação Paulista). Discreto, eis que ele aparece à minha frente, com um olhar do tipo "e aí, tudo bem?". Não me rendo e desconverso: "e o senhor, quem é?" Amuo irresistível. Juca Kfouri escreve sobre o poder do porco na última Carta Capital. Atenção para os números que ele mostra. A verticalização das coligações ficou para hoje no STF. Os governistas querem adiar o julgamento para tirar da jogada o ministro Néri da Silveira, que se aposenta semana que vem. Sabedor da tramóia, Néri preferiu adiantar seu "não" à adin (ação direta de inconstitucionalidade) contra a aplicação do Código de Defesa do Consumidor ao sistema financeiro e avisar que, em caso de adiamento, adiantará também seu voto contra a verticalização. A Argentina parou finalmente de olhar para cima sem nada ver exceto regras para olhar para o lado. Cada qual em seu devido lugar, é a lei dos tempos de hoje. O sujeito vende um livro e sai por aí com o queixo no punho - punho no queixo - vendendo-se pensador. Quem leva um punho no queixo no ringue vale mais como apenas um homem em busca de grana.

 

 
   
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